Teste de estanqueidade: o risco não é o vazamento, é a energia guardada no compartimento
A NR-34 pede projeto com memória de cálculo, regulador, válvulas de segurança e de alívio, manômetro calibrado, PT e área evacuada, e proíbe reapertar o que está pressurizado.
Tanque de lastro, duplo fundo, compartimento estanque, trecho de tubulação: antes de o navio seguir, cada um é pressurizado para provar que não vaza. O ensaio parece rotina de controle de qualidade, mas guarda energia dentro de uma estrutura soldada. Tampa de visita que cede, flange que escapa ou mangueira que chicoteia transformam essa energia em projétil. A NR-34 trata do assunto na seção 34.14, e a definição já diz de que se trata:
Considera-se teste de estanqueidade o ensaio não destrutivo realizado pela aplicação de pressão em peça, compartimento ou tubulação para detecção de vazamentos.
o sistema de teste é projetado
O projeto do sistema do teste de estanqueidade deve ser elaborado por profissional legalmente habilitado.
A memória de cálculo desse projeto fica no estabelecimento (34.14.5.1). O sistema precisa ter regulador de pressão, válvula de segurança, válvula de alívio e medidor de pressão calibrado e de fácil leitura (34.14.4), e a válvula de segurança é ajustada para abrir na pressão definida no procedimento de teste (34.14.10). Esse procedimento é elaborado e qualificado por profissional capacitado, que também executa e supervisiona o ensaio (34.14.2).
A NR-34 não fixa a pressão de teste nem a distância de isolamento: as duas saem do procedimento e do projeto. É por isso que eles precisam existir por escrito antes do primeiro teste — e não ser montados de memória na hora.
antes de abrir a válvula
Antes do início das atividades, devem ser adotadas as seguintes medidas de segurança: a) emitir a PT; b) evacuar, isolar e sinalizar a área de risco definida no procedimento; c) implementar EPC; d) na inviabilidade técnica do uso de EPC, deve ser elaborada APR contendo medidas alternativas que assegurem a integridade física do trabalhador.
Duas preparações físicas completam a lista. Juntas de expansão, acessórios, instrumentos e vidros de manômetro que não suportem a pressão de teste são retirados e isolados (34.14.7). E todas as junções ficam expostas, sem isolamento nem revestimento (34.14.8): é nelas que o vazamento aparece, e é nelas que a falha começa. Quem executa o teste usa identificação fácil de ver, que o diferencie dos demais (34.14.3) — num costado com várias equipes, é o que permite saber quem pode entrar na área.
durante o teste
A pressão sobe de forma gradual até a final (34.14.15). Atingida a pressão de ensaio, o sistema de teste é bloqueado do sistema testado (34.14.11). Linha flexível leva cabo de segurança contra chicoteamento (34.14.14). E a regra que mais se quebra na pressa:
É proibido o reparo, reaperto ou martelamento no sistema testado quando pressurizado.
Achou vazamento na flange? Despressuriza, corrige e pressuriza de novo. Apertar o parafuso com o compartimento carregado é a situação em que a peça se solta na direção de quem está com a chave na mão.
ao interromper e ao terminar
Ao interromper o teste, os sistemas não devem ser mantidos pressurizados.
Parada para o almoço, troca de turno, chuva: o compartimento não fica carregado esperando. E a despressurização só pode ser feita pela válvula de alívio do sistema (34.14.13) — soltar a mangueira ou afrouxar a tampa para "sangrar" não é despressurizar.
quem faz
O trabalhador capacitado passa pelo curso básico do Anexo I (item 5), com módulo teórico e módulo prático, e por treinamento periódico a cada 12 meses (34.14.2.1 e 34.14.2.2), dado por instrutores com proficiência comprovada, sob responsabilidade de profissional legalmente habilitado (34.14.2.3). A PT vale para o turno e é assinada pela equipe, pela chefia imediata e pelo profissional de segurança e saúde no trabalho — ou, na falta dele, pelo responsável pelo cumprimento da norma (34.4.2).
A análise preliminar de risco, quando o uso de proteção coletiva for inviável, é feita por equipe multidisciplinar coordenada pelo profissional de segurança e assinada por todos (34.4.3). E vale para o teste a regra geral da NR-34: o trabalho é interrompido de imediato quando as condições mudam e o tornam perigoso (34.2.1, alínea "c"). Manômetro que oscila sem explicação, ruído estranho na estrutura, gente entrando na área isolada — são motivos para parar, despressurizar pela válvula de alívio e reavaliar.
Se depois alguém precisar entrar
Compartimento de casco é, muitas vezes, espaço confinado. Se a inspeção depois do teste exigir entrada, valem também as regras da NR-33 para a entrada — permissão própria, avaliação da atmosfera e vigia. O teste de estanqueidade não substitui nenhuma delas.
o que o procedimento escrito precisa ter
- a pressão de teste e a pressão de ajuste da válvula de segurança;
- a área de risco a evacuar e isolar, com a forma de sinalização;
- a lista do que sai do sistema antes do teste (juntas, instrumentos, vidros);
- a rampa de subida da pressão e o momento do bloqueio;
- o que fazer ao achar vazamento: despressurizar antes de qualquer reparo;
- como e por onde despressurizar ao interromper e ao terminar.
Onde ler na fonte
Fontes
- NR-34 — Condições e meio ambiente de trabalho na indústria da construção, reparação e desmonte naval. Itens 34.14.1 a 34.14.15 - testes de estanqueidade
- NR-34 — Condições e meio ambiente de trabalho na indústria da construção, reparação e desmonte naval. Anexo I, item 5 - curso básico de segurança em teste de estanqueidade
- NR-34 — Condições e meio ambiente de trabalho na indústria da construção, reparação e desmonte naval. Itens 34.4.2 e 34.4.3 - PT e APR
A norma vigente e sempre a publicada pelo Ministerio do Trabalho e Emprego. Este texto comenta a exigencia — nao a substitui, e nao vale como parecer para caso concreto.

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