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Grua, guindaste e equipamento de guindar têm cargas horárias diferentes — e um estágio supervisionado de 90 dias que quase ninguém cumpre

O Anexo I da NR-18 separa três figuras de operação, fixa piso de parte prática para cada uma e ainda exige estágio supervisionado antes de o operador assumir sozinho.

·6 min de leitura·NR-18 · NR-12

No canteiro tudo que levanta carga vira "guindaste" na conversa. No Anexo I da NR-18, não: há três figuras distintas de operação, com cargas horárias que vão de um dia de curso a três semanas, e a diferença entre elas não é de nomenclatura — é de quanto tempo de prática a norma exige antes de a pessoa assumir o comando.

Três figuras que a norma não confunde

FunçãoTreinamento inicialParte prática mínimaTreinamento periódico
Operador de grua80 horas40 horasa critério do empregador
Operador de guindaste120 horas80 horasa critério do empregador
Operador de equipamentos de guindara critério do empregador50% da carga horáriaa critério do empregador, a cada 2 anos
Sinaleiro / amarrador de cargas16 horasnão fixada no Quadro 1a critério do empregador, a cada 2 anos

Repare na proporção, não só no total. No guindaste, dois terços da carga são de prática; na grua, metade. E o "operador de equipamentos de guindar" — a figura genérica, que alcança o que não é grua nem guindaste — teve a carga total devolvida ao empregador, mas manteve o piso de 50% de prática. Ou seja: a norma abriu mão do número de horas e não abriu mão da proporção.

É o oposto do que se vê em campo, onde o curso genérico de guindar costuma ser o mais teórico dos três.

O estágio supervisionado de 90 dias

Este é o item que separa a documentação bonita da operação real, e ele não está no quadro — está no texto logo abaixo dele.

No caso das gruas e guindastes, além do treinamento teórico e prático, o operador deve passar por um estágio supervisionado de pelo menos 90 (noventa) dias.
NR-18, Anexo I, item 1.2

Noventa dias além das 80 ou 120 horas de curso. Um operador de grua recém-formado que assume a máquina sozinho no dia seguinte ao certificado está fora do Anexo I, ainda que o certificado esteja perfeito. E existe uma única via de substituição:

O estágio supervisionado pode ser dispensado para o operador com experiência comprovada de, no mínimo, 6 (seis) meses na função, a critério e sob responsabilidade do empregador.
NR-18, Anexo I, item 1.2.1

Duas condições e um dono. As condições: seis meses na função, e comprovados — registro em carteira, contrato, declaração de empregador anterior, algo verificável. O dono: a decisão é do empregador e a responsabilidade, também. Quem substitui o estágio por experiência sem juntar a prova não economizou noventa dias; trocou-os por um risco.

"Sob responsabilidade do empregador" é uma cláusula de prova

Sempre que a norma devolve uma decisão ao empregador e acrescenta "sob sua responsabilidade", ela está dizendo que o ônus de demonstrar o acerto muda de lado. Numa análise de acidente, a pergunta não será "podia?" — será "onde está o documento que comprova os seis meses?".

O conteúdo do guindaste é o da grua, mais dois assuntos

para o operador de guindaste: I. todos os itens previstos na capacitação para operação de gruas; II. leitura e interpretação de plano de içamento; III. condições que afetam a capacidade de carga da máquina, em especial quanto ao nivelamento, características da superfície sob a máquina, carga dinâmica e vento.
NR-18, Anexo I, item 2.1, alínea "d"

A norma escreveu a escada: o guindaste é a grua mais leitura de plano de içamento e mais fatores que reduzem a capacidade de carga. Isso responde de imediato uma dúvida comum de matriz: quem tem curso de guindaste completo tem o conteúdo do de grua, mas o contrário não vale.

Dentro do conteúdo de grua há ainda um item que a maioria dos programas de curso ignora: a alínea "c" do mesmo item exige, entre os assuntos, os fundamentos da NR-35, que trata de trabalho em altura. O operador de grua é treinado em altura por exigência da NR-18, não apenas por prática de mercado.

E a figura genérica busca o conteúdo em outra norma:

para o operador de equipamento de guindar: o conteúdo programático descrito no Anexo II da NR-12 ou definido pelo fabricante/locador.
NR-18, Anexo I, item 2.1, alínea "b"

Duas fontes possíveis, e a segunda tem uma consequência prática: quando o conteúdo vem do fabricante ou do locador, ele precisa existir em documento. "Treinado pelo locador na entrega técnica" sem programa escrito não fecha a alínea.

O que precisa estar no canteiro, em papel

c) comprovantes de capacitação e autorização do operador do equipamento de guindar em operação no local; d) comprovantes de capacitação do sinaleiro/amarrador de cargas e do trabalhador designado para inspecionar plataformas em balanço para recebimento de cargas;
NR-18, item 18.10.1.23, alíneas "c" e "d"

Leia a alínea "c" com atenção: são dois comprovantes, capacitação e autorização. São atos diferentes — um é curso, o outro é ato da empresa designando aquela pessoa para aquele equipamento naquele local. Certificado não autoriza ninguém; autorização é decisão nominal do empregador, e o item exige que ela esteja no canteiro.

A alínea "d" acrescenta uma figura que raramente entra na matriz de treinamento: o trabalhador designado para inspecionar plataformas em balanço. Ele não é o sinaleiro nem o operador — é uma terceira capacitação, cujo comprovante a fiscalização pode pedir no mesmo ato.

Quando no mesmo local houver dois ou mais equipamentos de guindar com risco de interferência entre seus movimentos, deve haver sistema automatizado anticolisão instalado nos equipamentos ou sinaleiro capacitado e autorizado para coordenar os movimentos desses equipamentos.
NR-18, item 18.10.1.22

Este item é uma das poucas passagens da NR-18 em que capacitação aparece como alternativa a um dispositivo de engenharia. Quem opta pelo sinaleiro no lugar do anticolisão assumiu a medida de menor hierarquia de prevenção, e deveria conseguir explicar por quê — a escolha é registrável e questionável.

Fontes

A norma vigente e sempre a publicada pelo Ministerio do Trabalho e Emprego. Este texto comenta a exigencia — nao a substitui, e nao vale como parecer para caso concreto.

Este assunto tem um guia em PDF

Presencial ou a distância: a modalidade do treinamento

Guia técnico · NR-1 (Anexo II) e NR-35 · 17 páginas · PDF

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