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O curso básico da NR-10 não é para eletricista: é para quem intervém na instalação

A norma não fala em cargo, fala em intervir. E depois das quarenta horas do Anexo III ela ainda põe uma segunda condição, permanente, que não termina quando o curso acaba.

·8 min de leitura·NR-10

A pergunta que chega ao setor de treinamento quase sempre vem errada de origem: "quantos eletricistas eu tenho para mandar para a NR-10?". A norma não conta eletricistas. Ela conta quem intervém na instalação elétrica — e essa lista costuma ser bem maior do que a folha de pagamento sugere.

O mecânico que abre o painel para trocar um contator intervém. O técnico de refrigeração que desliga o disjuntor do quadro para trabalhar na unidade condensadora intervém. Quem faz comissionamento de uma máquina nova intervém. Nenhum deles tem "eletricista" na carteira, e todos os três entram na regra.

o que a norma diz, sem o vocabulário de RH

Os trabalhadores autorizados a intervir em instalações elétricas devem possuir treinamento específico sobre os riscos decorrentes do emprego da energia elétrica e as principais medidas de prevenção de acidentes em instalações elétricas, de acordo com o estabelecido no Anexo III desta NR.
NR-10, item 10.8.8

Três coisas ficam fixadas nessa única frase, e vale ler devagar. A primeira: o critério é intervir em instalações elétricas, não exercer a profissão de eletricista. A segunda: o objeto do treinamento é o risco da energia elétrica e a prevenção de acidentes — ou seja, é um curso de segurança, não um curso de eletricidade. A terceira, a que mais atrapalha na hora de comprar o curso: o conteúdo e a carga horária não estão no corpo da norma. Estão no Anexo III, e é para lá que o item remete.

Isso tem consequência prática imediata. Um certificado que menciona apenas "NR-10" e a ementa que a escola achou razoável não prova conformidade: o que precisa estar atendido é o currículo mínimo do Anexo III. Quem confere certificado de terceiro faz bem em pedir a ementa e comparar item a item com o anexo, e não com o hábito do mercado.

as quarenta horas, e o que elas têm de cobrir

O Anexo III abre com o curso básico, e o número aparece na primeira linha dele, junto com a definição de para quem o curso é:

CURSO BÁSICO - SEGURANÇA EM INSTALAÇÕES E SERVIÇOS COM ELETRICIDADE I - Para os trabalhadores autorizados: carga horária mínima - 40h:
NR-10, Anexo III, curso básico

Duas informações numa linha só. A carga horária mínima é de quarenta horas — e o destinatário é, textualmente, o trabalhador autorizado, o que fecha o círculo com o item 10.8.8: autoriza-se quem fez o curso, e o curso é definido como sendo para quem vai ser autorizado.

A programação mínima que vem em seguida explica por que quarenta horas é piso, e não excesso. Ela vai da introdução à segurança com eletricidade aos riscos em instalações e serviços — choque elétrico e seus mecanismos, arcos elétricos, queimaduras, quedas e campos eletromagnéticos —, passa por técnicas de análise de risco, percorre treze medidas de controle do risco elétrico (da desenergização e dos três tipos de aterramento à equipotencialização, ao seccionamento automático, aos dispositivos a corrente de fuga, a barreiras, bloqueios, obstáculos, isolação e separação elétrica), trata das normas técnicas brasileiras e da regulamentação do Ministério do Trabalho, da proteção coletiva e individual, das rotinas e procedimentos de trabalho, da documentação das instalações, dos riscos adicionais — altura, ambiente confinado, área classificada, umidade e condições atmosféricas —, da proteção e combate a incêndios, dos acidentes de origem elétrica com discussão de casos, dos primeiros socorros, e termina em responsabilidades.

Essa lista é o melhor filtro que existe para julgar proposta comercial. Curso de dezesseis ou vinte horas que apresente essa mesma ementa está prometendo o que não cabe; e curso de quarenta horas que não traga prática de combate a incêndio e de primeiros socorros deixou de fora dois pontos em que a programação mínima escreve a palavra prática com todas as letras.

ensaios, testes e comissionamento entram junto

Os ensaios e testes elétricos laboratoriais e de campo ou comissionamento de instalações elétricas devem atender à regulamentação estabelecida nos itens 10.6 e 10.7, e somente podem ser realizados por trabalhadores que atendam às condições de qualificação, habilitação, capacitação e autorização estabelecidas nesta NR.
NR-10, item 10.4.6

Esse item costuma passar despercebido porque parece ser sobre laboratório. Não é. A palavra decisiva é comissionamento: a energização inicial de uma instalação nova, o teste de partida de um painel montado, a checagem de campo antes da entrega da obra. A empresa que executa comissionamento com equipe montada às pressas — muitas vezes a equipe do fornecedor da máquina — está dentro do alcance do item, e as quatro condições valem para todos da equipe, sem exceção para quem "só está olhando".

a segunda condição, a que não termina com o curso

Aqui está o ponto que mais se lê errado na NR-10 inteira. Ser capacitado não é ter feito o curso. São duas condições, e a norma exige as duas ao mesmo tempo.

É considerado trabalhador capacitado aquele que atenda às seguintes condições, simultaneamente: a) receba capacitação sob orientação e responsabilidade de profissional habilitado e autorizado; e b) trabalhe sob a responsabilidade de profissional habilitado e autorizado.
NR-10, item 10.8.3

A alínea "a" olha para trás: descreve como o curso foi feito. A alínea "b" olha para agora: descreve como a pessoa trabalha hoje. E o verbo está no presente — trabalhe, não "tenha trabalhado". Se o profissional habilitado que respondia pela equipe sai da empresa e ninguém assume formalmente o lugar dele, os capacitados deixam de atender à alínea "b" no dia seguinte, com certificado válido na gaveta e tudo.

O erro de leitura mais comum

Tratar a capacitação como um atributo da pessoa, que ela carrega consigo. Na NR-10 ela é um arranjo: alguém capacitou, e alguém responde. Falta uma das pontas, falta a condição. É por isso que a norma diz, no item 10.8.3.1, que a capacitação só tem validade para a empresa que capacitou e nas condições estabelecidas pelo profissional habilitado responsável.

quem participa da construção do treinamento

Os procedimentos de trabalho, o treinamento de segurança e saúde e a autorização de que trata o item 10.8 devem ter a participação em todo processo de desenvolvimento do Serviço Especializado de Engenharia de Segurança e Medicina do Trabalho - SESMT, quando houver.
NR-10, item 10.11.4

Repare no alcance: em todo processo de desenvolvimento, e sobre três objetos ao mesmo tempo — procedimento, treinamento e autorização. Não é validar a lista de presença depois. É participar de como o procedimento foi escrito, de que conteúdo o treinamento precisa ter naquela instalação e de quem a empresa vai autorizar. Onde há SESMT e o treinamento foi comprado pronto sem que ninguém do serviço tenha visto a ementa, esse item não está atendido, ainda que o curso em si seja bom.

o que basta e o que não basta

O que a empresa costuma terO que a NR-10 ainda pedeOnde está
Certificado de curso de NR-10Currículo mínimo do Anexo III e carga horária mínima de quarenta horasitem 10.8.8 e Anexo III
Lista de eletricistas treinadosTodos que intervêm na instalação, com ou sem o cargoitem 10.8.8
Equipe própria treinadaEquipe de comissionamento e de ensaios nas mesmas condiçõesitem 10.4.6
Capacitação feita no passadoProfissional habilitado e autorizado respondendo hojeitem 10.8.3, alínea b
Curso contratado no mercadoParticipação do SESMT, quando houver, no desenvolvimentoitem 10.11.4

A leitura das cinco linhas acima resume o artigo: o curso básico é o começo do arranjo, não o arranjo inteiro. Quem monta a matriz de treinamento a partir de cargos vai errar a lista; quem monta a partir de atividade que toca a instalação acerta.

Fontes

A norma vigente e sempre a publicada pelo Ministerio do Trabalho e Emprego. Este texto comenta a exigencia — nao a substitui, e nao vale como parecer para caso concreto.

Este assunto tem um guia em PDF

Presencial ou a distância: a modalidade do treinamento

Guia técnico · NR-1 (Anexo II) e NR-35 · 17 páginas · PDF

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