Um perigo, várias consequências: a severidade é a maior, e a probabilidade precisa ser a dela
A NR-01 manda escolher a consequência de maior magnitude. O erro comum vem depois: graduar a probabilidade com o que costuma acontecer, e não com a chance daquela lesão.
Numa metalúrgica, a máquina de corte tem uma lâmina que fica ao alcance da mão do operador. Se alguém perguntar o que pode acontecer ali, a resposta honesta é uma lista: um arranhão, um corte superficial, um corte fundo com lesão de tendão, a perda de um dedo. O mesmo perigo, quatro desfechos. A planilha do inventário, porém, tem uma célula só para a severidade. Qual dos quatro entra nela?
A resposta está escrita na norma, e o que vem depois dela, que a norma não escreve, é o ponto em que muita classificação de risco sai errada.
o que a norma manda
O item 1.5.4.4.4 define a severidade como a magnitude das possíveis consequências. O subitem seguinte resolve o caso da lista:
Para cada perigo identificado, quando existir mais de uma consequência possível, deve ser selecionada a consequência de maior magnitude.
Maior não quer dizer a mais provável, nem a mais comum, nem a média das quatro. Quer dizer a pior que seja uma consequência possível daquele perigo. No exemplo, a perda do dedo. O verbo é "deve": não é uma preferência de metodologia, é uma regra de leitura do perigo.
Há um limite de bom senso embutido na palavra "possível". A lista contém o que o perigo pode, de fato, produzir naquela circunstância, e não toda desgraça imaginável. Uma lâmina que alcança a mão pode amputar um dedo. Não costuma matar. Escrever "óbito" ali seria sair da realidade do perigo, e o inventário perderia a credibilidade.
a probabilidade não é escolhida pela mesma regra
A norma tem um item só para a probabilidade, e ele é curto:
A probabilidade deve ser estabelecida com base na chance de ocorrência das lesões ou agravos à saúde.
Leia com calma: a chance de ocorrência das lesões. Não é a chance de "acontecer alguma coisa na máquina". A severidade escolhida é a perda do dedo; a pergunta da probabilidade passa a ser quão provável é, nas condições do posto, que o perigo chegue a esse desfecho. Os subitens 1.5.4.4.5.2 a 1.5.4.4.5.4 dizem o que olhar: para acidentes, a exposição do trabalhador ao perigo e a eficácia das medidas implementadas; para fatores ergonômicos, as exigências da atividade e a mesma eficácia.
O texto não diz, com essas palavras, que a probabilidade deve ser a da consequência escolhida. Mas é a leitura que o conjunto sustenta, e a outra leitura produz dois erros opostos:
- Severidade máxima com probabilidade de qualquer incidente. O dedo amputado ao lado de uma frequência alta de arranhões dá um risco inflado, e a prioridade vai para onde não precisa.
- Probabilidade do desfecho grave, que é rara, aplicada a uma severidade média. O risco sai baixo, e o perigo que pode amputar fica fora do plano.
Nos dois casos, a combinação do item 1.5.4.4.2 perde o sentido. Esse item diz que o nível de risco é determinado pela combinação da severidade das possíveis lesões com a probabilidade de sua ocorrência. As duas partes falam da mesma lesão.
dois exemplos lado a lado
| Máquina de corte | Levantamento manual de sacos | |
|---|---|---|
| Perigo | Lâmina ao alcance da mão | Carga repetida acima do que a atividade comporta |
| Consequências possíveis | Arranhão, corte superficial, corte com lesão de tendão, perda de dedo | Dor muscular passageira, lesão da coluna com afastamento |
| Severidade escolhida | Perda de dedo | Lesão da coluna com afastamento |
| O que a probabilidade considera | Quantas vezes por turno a mão entra na zona; proteção fixa e comando bimanual funcionando | Peso, frequência e postura exigidos pela atividade; auxílio mecânico e pausas que de fato existem |
| Item que orienta | 1.5.4.4.5.4 (acidentes) | 1.5.4.4.5.3 (fatores ergonômicos) |
Observe que a medida de prevenção entra pela probabilidade. Ela não muda a severidade do perigo: a lâmina continua capaz de amputar. O que a proteção faz é diminuir a chance de a mão chegar lá. Depois de implantada, a alínea "a" do 1.5.4.4.6 manda reavaliar o risco residual, e é aí que o nível desce, se descer.
onde isso precisa estar escrito
A norma pede que as gradações não fiquem na cabeça de quem preencheu a planilha:
A organização deve detalhar em documento os critérios das gradações de severidade e de probabilidade, os níveis de risco, os critérios de classificação de riscos e de tomada de decisão utilizados no gerenciamento de riscos ocupacionais.
É nesse documento que cabe dizer, em uma frase, como a organização liga a probabilidade à consequência escolhida. Quem confere um inventário alheio começa por aí: se o critério não existe, qualquer célula da matriz pode ser contestada, e a empresa não tem como mostrar que decidiu de forma consistente.
do nível ao plano de ação
Escolhida a severidade e graduada a probabilidade, o risco ganha nível. O passo seguinte é o 1.5.4.4.3: classificar os riscos para identificar a necessidade de adotar ou manter medidas de prevenção e para elaborar o plano de ação. O plano é o item 1.5.5.2.1, e ele indica o que será introduzido, aprimorado ou mantido.
Duas regras ajudam a ordenar a fila. A primeira vem escrita:
O número de trabalhadores possivelmente atingidos deve ser utilizado como critério para aumentar a prioridade de ação.
A segunda é do item 1.5.5.2.2: toda medida do plano tem cronograma, responsáveis, forma de acompanhamento e aferição de resultados. O que a norma não faz é fixar prazo por nível de risco. Quantos dias para um risco alto, quantos para um médio, é decisão da organização, e o lugar de registrar essa decisão é o documento de critérios do 1.5.4.4.2.2, na parte da tomada de decisão.
quando o perigo parece ser dois
A regra da maior consequência vale "para cada perigo identificado". Se a lâmina corta durante a operação e, em outra circunstância, durante a troca da ferramenta, com outro grupo exposto, pode haver duas situações distintas, e a identificação de perigos justamente pede a indicação das fontes e circunstâncias (alínea "b" do 1.5.4.3.1). Separar é legítimo quando as circunstâncias diferem de verdade. Separar só para esconder a pior consequência atrás de uma probabilidade pequena não é.
Roteiro de cinco passos para cada perigo
1) Liste as consequências possíveis, da menor à maior. 2) Marque a de maior magnitude: é a severidade. 3) Gradue a probabilidade daquela lesão, olhando exposição ou exigência da atividade e a eficácia das medidas que já existem. 4) Cruze as duas e registre o nível. 5) Leve o risco classificado ao plano de ação, com cronograma, responsável e aferição, e ponha mais pessoas atingidas como motivo para subir na fila.
Onde ler na fonte
Fontes
- NR-1 — Disposições gerais e gerenciamento de riscos ocupacionais. Itens 1.5.4.4.2, 1.5.4.4.4, 1.5.4.4.4.1 e 1.5.4.4.5
- NR-1 — Disposições gerais e gerenciamento de riscos ocupacionais. Itens 1.5.4.4.5.3 e 1.5.4.4.5.4
- NR-1 — Disposições gerais e gerenciamento de riscos ocupacionais. Item 1.5.4.4.2.2
- NR-1 — Disposições gerais e gerenciamento de riscos ocupacionais. Itens 1.5.4.4.3, 1.5.5.2.1, 1.5.5.2.1.1 e 1.5.5.2.2
- NR-1 — Disposições gerais e gerenciamento de riscos ocupacionais. Item 1.5.4.3.1, alínea "b"
A norma vigente e sempre a publicada pelo Ministerio do Trabalho e Emprego. Este texto comenta a exigencia — nao a substitui, e nao vale como parecer para caso concreto.

MEI, ME e EPP: o capítulo 1.8 da NR-1
Guia técnico · NR-1, capítulo 1.8 · 16 páginas · PDF
A hierarquia de medidas é obrigação de ordem — e o EPI é o último degrau
A norma não pede que você escolha uma medida. Pede que você percorra uma sequência, na ordem em que ela vem — o que vem primeiro é fixado — e que prove por que parou onde parou.
Deste eixoInventário de riscos: as nove alíneas — e o documento de critérios que saiu de lá
A NR-1 lista nove alíneas de conteúdo mínimo. Oito descrevem; a nona classifica. E o que transforma a lista em decisão técnica — os critérios — deixou de ser alínea do inventário e virou item próprio.
EixoGerenciamento de riscos ocupacionais
O GRO e o PGR: como o risco sai do papel e vira inventário, plano de ação e prova de que a empresa agiu.