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Direito de recusa: o que a NR-1 passou a dizer depois da alteração de 2024

A interrupção por risco grave e iminente ganhou dois itens novos em março de 2024. Um protege quem interrompeu; o outro transforma a comunicação do risco em dever do trabalhador.

·5 min de leitura·NR-1 · NR-4 · NR-28

O chamado direito de recusa é citado em todo treinamento de integração e quase nunca com o item na mão. Ele mudou em 21 de março de 2024, pela Portaria MTE nº 342: o item que já existia foi alterado e dois outros foram inseridos logo abaixo. Um deles é a peça que faltava — a proteção de quem interrompe — e é justamente a menos comentada.

O item que abre a sequência

O trabalhador pode interromper suas atividades quando constatar uma situação de trabalho onde, a seu ver, por motivos razoáveis, envolva um risco grave e iminente para a sua vida ou saúde, informando imediatamente ao seu superior hierárquico.
NR-1, item 1.4.3

Três expressões carregam o item. A seu ver desloca o juízo para o trabalhador — não é preciso que o risco venha confirmado por laudo antes da interrupção. Por motivos razoáveis é o contrapeso: a avaliação é dele, mas precisa ser sustentável. E informando imediatamente ao seu superior hierárquico transforma a interrupção em ato comunicado, não em abandono de posto. Quem interrompe e não avisa cumpriu metade do item.

O que o empregador não pode fazer enquanto o risco existir

O empregador não pode exigir o retorno dos trabalhadores à atividade enquanto não sejam adotadas as medidas corretivas da situação de grave e iminente risco para sua vida ou saúde.
NR-1, item 1.4.3.1

Note o plural: trabalhadores. O item não fala só de quem interrompeu. Constatada a situação, a proibição de exigir retorno alcança a atividade, e não a pessoa. E a condição para o retorno é objetiva — adoção das medidas corretivas —, não a passagem do tempo nem a reavaliação verbal da chefia.

O item inserido em 2024 que ninguém comenta

O trabalhador deve ser protegido de consequências injustificadas, em decorrência da interrupção prevista no caput do item 1.4.3 desta NR.
NR-1, item 1.4.3.2

Antes de março de 2024, a NR-1 dizia que o trabalhador podia interromper e que o empregador não podia exigir o retorno — e parava aí. O que faltava era exatamente o elo seguinte: interromper não pode custar caro a quem interrompeu. O item usa a expressão consequências injustificadas, que é mais larga do que punição formal: alcança remanejamento, mudança de escala, perda de tarefa e qualquer efeito adverso que não tenha justificativa própria, independente da interrupção.

O 1.4.3.3, inserido pela mesma portaria, fecha o conjunto pelo lado do dever: o trabalhador deve comunicar imediatamente ao superior as situações de risco grave e iminente para a sua vida ou saúde bem como de terceiros. A extensão a terceiros é nova e é relevante: a comunicação deixou de estar ligada à exposição própria.

Diagrama de fluxo com cinco atos do item 1.4.3 da NR-1: constatação da situação de risco grave e iminente pelo trabalhador, interrupção da atividade com informação imediata ao superior hierárquico, comunicação como dever pelo item 1.4.3.3, proibição de exigir o retorno antes das medidas corretivas pelo item 1.4.3.1, e proteção de quem interrompeu contra consequências injustificadas pelo item 1.4.3.2.
Os dois últimos passos são de 2024: antes deles, a norma descrevia a interrupção e não descrevia o que acontece depois com quem a fez.

A contraparte que todo mundo conhece

O item 1.4.2 lista os deveres do trabalhador — cumprir as disposições e as ordens de serviço, submeter-se aos exames médicos previstos nas NR, colaborar na aplicação das normas e usar o EPI fornecido. E o 1.4.2.1 qualifica a recusa injustificada ao cumprimento dessas alíneas como ato faltoso.

Ler os dois blocos juntos evita o erro mais comum da discussão. O 1.4.2.1 trata da recusa de cumprir um dever listado; o 1.4.3 trata da interrupção diante de risco grave e iminente. São hipóteses distintas, com pressupostos distintos, em itens vizinhos. Tratar a segunda como se fosse a primeira é exatamente o que o 1.4.3.2 passou a proibir.

A interrupção não é só do trabalhador

A alínea "h" do item 4.3.1 da NR-4 dá ao SESMT a competência de propor, imediatamente, a interrupção das atividades e a adoção de medidas corretivas ou de controle quando constatar condições ou situações de trabalho associadas a grave e iminente risco. É proposta, não decisão — mas é proposta que fica registrada e que muda a posição da organização a partir do momento em que é feita.

Do lado da fiscalização, o item 28.2.1 da NR-28 é o mais drástico dos três caminhos, e também parte de uma constatação:

Quando o agente da inspeção do trabalho constatar situação de grave e iminente risco à saúde e/ou integridade física do trabalhador, com base em critérios técnicos, deverá propor de imediato à autoridade regional competente a interdição do estabelecimento, setor de serviço, máquina ou equipamento, ou o embargo parcial ou total da obra, determinando as medidas que deverão ser adotadas para a correção das situações de risco.
NR-28, item 28.2.1

O 28.2.2 condiciona a suspensão da medida a novo laudo técnico do agente. São três reações distintas ao mesmo fato: o trabalhador interrompe, o SESMT propõe, a inspeção interdita.

O que registrar quando alguém interrompe

A NR-1 não cria formulário para o ato de recusa, e é por isso que ele quase nunca deixa rastro. O que os quatro itens tornam verificável é uma sequência simples: a comunicação ao superior e a hora dela; a descrição da situação constatada; as medidas corretivas adotadas e a data; e a liberação para retorno depois delas. Sem esse registro, o item 1.4.3.1 fica sem marco inicial e o 1.4.3.2 fica sem termo de comparação para dizer o que foi consequência injustificada.

Fontes

A norma vigente e sempre a publicada pelo Ministerio do Trabalho e Emprego. Este texto comenta a exigencia — nao a substitui, e nao vale como parecer para caso concreto.

Este assunto tem um guia em PDF

Treinamentos de SST: tipos, certificado e matriz

Guia técnico · NR-1 e normas específicas · 17 páginas · PDF

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