FJ, FJFS, AJ48, NC: as siglas do Anexo I da NR-07 que decidem o dia da coleta
A coluna do momento da coleta, nos quadros de indicadores biológicos, pesa mais no resultado do que o laboratório. Colher no dia errado produz um número que não mede o que a norma pede.
Quem monta a grade de exames de uma empresa com exposição química costuma copiar dos Quadros 1 e 2 do Anexo I da NR-07 três colunas: a substância, o indicador e o valor de referência. Fica para trás a coluna do meio, a do momento da coleta, preenchida com siglas que parecem detalhe de laboratório. Não são. O indicador biológico mede o agente, ou um produto do seu metabolismo, no sangue, na urina ou no ar exalado, e essa concentração sobe e desce ao longo do turno e da semana. O mesmo trabalhador, com a mesma exposição, dá um número na segunda-feira de manhã e outro na sexta-feira à tarde.
a regra que obriga a olhar a coluna
O momento da coleta das amostras biológicas deve seguir o determinado nos Quadros 1 e 2 do Anexo I desta NR.
O item vale para os dois quadros, e a nota do Quadro 1 acrescenta uma condição que quase nunca chega à agenda de exames:
As amostras devem ser colhidas nas jornadas de trabalho em que o trabalhador efetivamente estiver exposto ao agente a ser monitorado.
Coleta marcada para o primeiro dia depois das férias, para um dia de treinamento fora da área ou para a semana em que a linha ficou parada para manutenção produz um laudo tecnicamente perfeito e sem utilidade para o programa.
o que cada sigla quer dizer
O significado está na tabela de abreviaturas, no fim do Anexo I. Com um exemplo tirado do próprio quadro, fica assim:
- FJ - final de jornada. Coleta ao término do turno. É a sigla mais frequente: aparece, por exemplo, na acetona e no metanol na urina.
- FJFS - final do último dia de jornada da semana. Coleta no fim do último turno da semana de trabalho, quando o efeito dos dias anteriores já se acumulou. É a regra do cobalto na urina e de uma das duas formas de medir o cromo hexavalente.
- AJ - antes da jornada. Coleta no início do turno, antes da entrada na área. O mercúrio metálico na urina segue essa regra.
- AJFS - início da última jornada de trabalho da semana. O tolueno no sangue está nesse grupo.
- AJ-FJ - diferença pré e pós-jornada. Duas coletas no mesmo dia, uma antes e outra depois, e o que se avalia é o aumento. No cromo hexavalente, o quadro descreve essa forma como aumento durante a jornada.
- AJ48 - antes da jornada com no mínimo 48 horas sem exposição. Aparece no fluoreto urinário, no Quadro 2. O trabalhador precisa ter passado dois dias inteiros longe do agente antes de colher.
- FS - após 4 ou 5 jornadas de trabalho consecutivas. É a regra do arsênico inorgânico na urina.
- NC - não crítica. A única sigla que libera o horário, e mesmo assim com uma condição escrita na própria definição.
NC - Não crítica (pode ser colhido a qualquer momento desde que o trabalhador esteja trabalhando nas últimas semanas)
Chumbo no sangue, cádmio na urina e o indicador do óxido de etileno são de coleta não crítica: refletem exposição acumulada, e não o que aconteceu naquele turno. Ainda assim, coletar no dia da volta de um afastamento longo quebra a condição que a sigla impõe.
a coluna de observações também muda a leitura
Ao lado do valor de referência há uma segunda coluna de siglas, que não dizem quando colher, e sim como ler:
- EPNE - encontrado em populações não expostas ocupacionalmente. O indicador existe em quem nunca trabalhou com o agente: resultado baixo não é resultado zero.
- NE - não específico: pode vir de exposição a outras substâncias. O fenol na urina, por exemplo, traz essa marca.
- NF - valores para não fumantes. É o caso da carboxihemoglobina, indicador do monóxido de carbono: no fumante, o valor de base já é elevado, e a interpretação fica inviável.
- H e SH - o método analítico exige, ou proíbe, hidrólise. É instrução para o laboratório e precisa estar no pedido do exame.
Essas marcas conversam com a definição que abre a nota do Quadro 1: o indicador de exposição excessiva não tem caráter diagnóstico e só aponta a possibilidade de exposição acima do limite depois de descartadas outras causas não ocupacionais. NE e NF são justamente as outras causas que o médico precisa ter à mão quando lê o laudo.
a janela de 45 dias não muda a sigla
Os exames previstos nos Quadros 1 e 2 do Anexo I desta NR devem ser realizados a cada seis meses, podendo ser antecipados ou postergados por até 45 (quarenta e cinco) dias, a critério do médico responsável, mediante justificativa técnica, a fim de que os exames sejam realizados em situações mais representativas da exposição do empregado ao agente.
A flexibilidade que a norma dá é de calendário. Ela permite escolher a semana mais representativa, dentro de uma janela de 45 dias para cada lado, com justificativa escrita. Não permite trocar o momento da coleta: se a sigla é FJFS, a amostra continua sendo colhida no fim do último dia da semana, só que da semana escolhida. Para atividade sazonal, o item 7.5.14 admite periodicidade anual, desde que o exame seja feito junto com o período em que a atividade acontece. E, quando a própria organização armazena e transporta as amostras, segue o procedimento do laboratório contratado (7.5.12.2).
Monte a agenda por indicador, não por trabalhador
Para cada linha do PCMSO com exame dos Quadros 1 ou 2, registre a sigla, o dia da semana e o horário que ela impõe, e confirme com a produção que o trabalhador estará exposto naquela jornada. Em escala de revezamento, defina por escrito qual é o último dia da semana de trabalho de cada turma. Chamar todos ao ambulatório às oito horas de uma segunda-feira, para todos os exames do semestre, é o jeito mais comum de errar todas as siglas de uma vez.
por que isso decide o programa
O resultado do Quadro 1 alimenta uma decisão: havendo possibilidade de exposição excessiva, o médico responsável informa os responsáveis pelo PGR para reavaliação dos riscos e das medidas (7.5.19.4). Um número baixo porque a urina foi colhida antes do turno, quando a sigla pedia fim de jornada, fecha essa porta sem que ninguém perceba: o controle ambiental parece funcionar porque o exame foi feito antes de o agente ser absorvido. Por isso, a pergunta útil numa auditoria de PCMSO com monitoração biológica não é só "o exame foi feito?". É "foi colhido no momento que o quadro manda, numa jornada com exposição?". O laudo do laboratório costuma informar data e hora da coleta; confira as duas contra a sigla antes de arquivar o resultado.
Fontes
- NR-7 — Programa de controle médico de saúde ocupacional. Itens 7.5.12.1, 7.5.12.2, 7.5.13, 7.5.14 e 7.5.19.4
- NR-7 — Programa de controle médico de saúde ocupacional. Anexo I, Quadros 1 e 2 - coluna do momento da coleta e observações
- NR-7 — Programa de controle médico de saúde ocupacional. Anexo I, nota do Quadro 1 e tabela de abreviaturas
A norma vigente e sempre a publicada pelo Ministerio do Trabalho e Emprego. Este texto comenta a exigencia — nao a substitui, e nao vale como parecer para caso concreto.

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