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FJ, FJFS, AJ48, NC: as siglas do Anexo I da NR-07 que decidem o dia da coleta

A coluna do momento da coleta, nos quadros de indicadores biológicos, pesa mais no resultado do que o laboratório. Colher no dia errado produz um número que não mede o que a norma pede.

·7 min de leitura·NR-7

Quem monta a grade de exames de uma empresa com exposição química costuma copiar dos Quadros 1 e 2 do Anexo I da NR-07 três colunas: a substância, o indicador e o valor de referência. Fica para trás a coluna do meio, a do momento da coleta, preenchida com siglas que parecem detalhe de laboratório. Não são. O indicador biológico mede o agente, ou um produto do seu metabolismo, no sangue, na urina ou no ar exalado, e essa concentração sobe e desce ao longo do turno e da semana. O mesmo trabalhador, com a mesma exposição, dá um número na segunda-feira de manhã e outro na sexta-feira à tarde.

a regra que obriga a olhar a coluna

O momento da coleta das amostras biológicas deve seguir o determinado nos Quadros 1 e 2 do Anexo I desta NR.
NR-07, item 7.5.12.1

O item vale para os dois quadros, e a nota do Quadro 1 acrescenta uma condição que quase nunca chega à agenda de exames:

As amostras devem ser colhidas nas jornadas de trabalho em que o trabalhador efetivamente estiver exposto ao agente a ser monitorado.
NR-07, Anexo I, nota do Quadro 1

Coleta marcada para o primeiro dia depois das férias, para um dia de treinamento fora da área ou para a semana em que a linha ficou parada para manutenção produz um laudo tecnicamente perfeito e sem utilidade para o programa.

o que cada sigla quer dizer

O significado está na tabela de abreviaturas, no fim do Anexo I. Com um exemplo tirado do próprio quadro, fica assim:

  • FJ - final de jornada. Coleta ao término do turno. É a sigla mais frequente: aparece, por exemplo, na acetona e no metanol na urina.
  • FJFS - final do último dia de jornada da semana. Coleta no fim do último turno da semana de trabalho, quando o efeito dos dias anteriores já se acumulou. É a regra do cobalto na urina e de uma das duas formas de medir o cromo hexavalente.
  • AJ - antes da jornada. Coleta no início do turno, antes da entrada na área. O mercúrio metálico na urina segue essa regra.
  • AJFS - início da última jornada de trabalho da semana. O tolueno no sangue está nesse grupo.
  • AJ-FJ - diferença pré e pós-jornada. Duas coletas no mesmo dia, uma antes e outra depois, e o que se avalia é o aumento. No cromo hexavalente, o quadro descreve essa forma como aumento durante a jornada.
  • AJ48 - antes da jornada com no mínimo 48 horas sem exposição. Aparece no fluoreto urinário, no Quadro 2. O trabalhador precisa ter passado dois dias inteiros longe do agente antes de colher.
  • FS - após 4 ou 5 jornadas de trabalho consecutivas. É a regra do arsênico inorgânico na urina.
  • NC - não crítica. A única sigla que libera o horário, e mesmo assim com uma condição escrita na própria definição.
NC - Não crítica (pode ser colhido a qualquer momento desde que o trabalhador esteja trabalhando nas últimas semanas)
NR-07, Anexo I, tabela de abreviaturas

Chumbo no sangue, cádmio na urina e o indicador do óxido de etileno são de coleta não crítica: refletem exposição acumulada, e não o que aconteceu naquele turno. Ainda assim, coletar no dia da volta de um afastamento longo quebra a condição que a sigla impõe.

a coluna de observações também muda a leitura

Ao lado do valor de referência há uma segunda coluna de siglas, que não dizem quando colher, e sim como ler:

  • EPNE - encontrado em populações não expostas ocupacionalmente. O indicador existe em quem nunca trabalhou com o agente: resultado baixo não é resultado zero.
  • NE - não específico: pode vir de exposição a outras substâncias. O fenol na urina, por exemplo, traz essa marca.
  • NF - valores para não fumantes. É o caso da carboxihemoglobina, indicador do monóxido de carbono: no fumante, o valor de base já é elevado, e a interpretação fica inviável.
  • H e SH - o método analítico exige, ou proíbe, hidrólise. É instrução para o laboratório e precisa estar no pedido do exame.

Essas marcas conversam com a definição que abre a nota do Quadro 1: o indicador de exposição excessiva não tem caráter diagnóstico e só aponta a possibilidade de exposição acima do limite depois de descartadas outras causas não ocupacionais. NE e NF são justamente as outras causas que o médico precisa ter à mão quando lê o laudo.

a janela de 45 dias não muda a sigla

Os exames previstos nos Quadros 1 e 2 do Anexo I desta NR devem ser realizados a cada seis meses, podendo ser antecipados ou postergados por até 45 (quarenta e cinco) dias, a critério do médico responsável, mediante justificativa técnica, a fim de que os exames sejam realizados em situações mais representativas da exposição do empregado ao agente.
NR-07, item 7.5.13

A flexibilidade que a norma dá é de calendário. Ela permite escolher a semana mais representativa, dentro de uma janela de 45 dias para cada lado, com justificativa escrita. Não permite trocar o momento da coleta: se a sigla é FJFS, a amostra continua sendo colhida no fim do último dia da semana, só que da semana escolhida. Para atividade sazonal, o item 7.5.14 admite periodicidade anual, desde que o exame seja feito junto com o período em que a atividade acontece. E, quando a própria organização armazena e transporta as amostras, segue o procedimento do laboratório contratado (7.5.12.2).

Monte a agenda por indicador, não por trabalhador

Para cada linha do PCMSO com exame dos Quadros 1 ou 2, registre a sigla, o dia da semana e o horário que ela impõe, e confirme com a produção que o trabalhador estará exposto naquela jornada. Em escala de revezamento, defina por escrito qual é o último dia da semana de trabalho de cada turma. Chamar todos ao ambulatório às oito horas de uma segunda-feira, para todos os exames do semestre, é o jeito mais comum de errar todas as siglas de uma vez.

por que isso decide o programa

O resultado do Quadro 1 alimenta uma decisão: havendo possibilidade de exposição excessiva, o médico responsável informa os responsáveis pelo PGR para reavaliação dos riscos e das medidas (7.5.19.4). Um número baixo porque a urina foi colhida antes do turno, quando a sigla pedia fim de jornada, fecha essa porta sem que ninguém perceba: o controle ambiental parece funcionar porque o exame foi feito antes de o agente ser absorvido. Por isso, a pergunta útil numa auditoria de PCMSO com monitoração biológica não é só "o exame foi feito?". É "foi colhido no momento que o quadro manda, numa jornada com exposição?". O laudo do laboratório costuma informar data e hora da coleta; confira as duas contra a sigla antes de arquivar o resultado.

Fontes

A norma vigente e sempre a publicada pelo Ministerio do Trabalho e Emprego. Este texto comenta a exigencia — nao a substitui, e nao vale como parecer para caso concreto.

Este assunto tem um guia em PDF

PCMSO: diretrizes, exames, prazos e relatório analítico

Guia técnico · NR-7 · 19 páginas · PDF

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