Taxa metabólica do calor: como escolher a linha do Quadro 3 da NR-09
A taxa metabólica sai da comparação entre a tarefa e o Quadro 3. Se a tarefa não consta, vale a mais parecida; sem parecida, outra referência técnica justificada.
Dois trabalhadores na mesma sala quente não têm o mesmo problema se um está sentado conferindo etiquetas e o outro empurra carrinho carregado. O calor que o corpo recebe do ambiente é o mesmo; o calor que o corpo produz trabalhando não. A norma incorpora essa diferença num número, a taxa metabólica, e ela decide qual linha dos quadros de limite vale para a atividade.
A taxa metabólica é representada nos quadros por M e medida em watts. Quem avalia calor pela NR-09 precisa escolher esse número antes de comparar o IBUTG medido com qualquer limite. A escolha, embora pareça detalhe de planilha, é onde mais se erra, porque ninguém mede a taxa metabólica: ela é estimada.
a regra: comparar a atividade com o quadro
A taxa metabólica deve ser estimada com base na comparação da atividade realizada pelo trabalhador com as opções apresentadas no Quadro 3 deste anexo.
O verbo é estimar, e o método é comparar. Não há medição de consumo de oxigênio nem cálculo fisiológico: o avaliador observa o que o trabalhador faz e escolhe a linha do Quadro 3 que mais se parece com o que viu. Por isso a observação da tarefa real, e não da tarefa prescrita, é a matéria-prima. A avaliação preliminar do item 3.2 já trazia os dois ingredientes entre os aspectos a considerar: a alínea "j" pede a estimativa do tempo de permanência em cada atividade e situação térmica, e a alínea "k", a taxa metabólica das atividades.
como o Quadro 3 está organizado
O quadro tem três grandes blocos de postura: sentado; em pé, agachado ou ajoelhado; e em pé, em movimento. Nos dois primeiros, cada linha cruza a parte do corpo que trabalha (mãos, um braço, dois braços, braços e pernas ou o corpo todo) com a intensidade (leve, moderado, pesado), mais a linha de repouso. No terceiro, entram o andar em plano com e sem carga, a corrida, as rampas, as escadas e algumas tarefas descritas por exemplo, como varrer, empurrar carrinho de mão ou remover material com pá.
| Atividade no Quadro 3 | Taxa metabólica (W) | IBUTG máximo na mesma taxa, Quadro 1 |
|---|---|---|
| Sentado, em repouso | 100 | 31,7 °C |
| Em pé, trabalho pesado com as mãos | 198 | 27,5 °C |
| Em pé, trabalho moderado com dois braços | 279 | 25,4 °C |
| Em pé, trabalho moderado de levantar ou empurrar (linha de tarefas) | 349 | não há linha de 349 W no Quadro 1 |
A terceira coluna é só para mostrar o efeito: quanto maior o esforço, menor o IBUTG que a tabela admite. Os valores foram lidos do Quadro 1 e estão ali como números, sem a regra de quem se enquadra em qual quadro, assunto de outro artigo sobre o Quadro 1. A última linha da tabela acima aponta um fato do texto: nem toda taxa do Quadro 3 tem uma linha igual nos quadros de limite.
Um ponto que o texto deixa em aberto
O Anexo III não diz como tratar uma taxa metabólica que cai entre duas linhas dos quadros de limite, como os 349 W do exemplo acima. Não há regra de arredondamento nem de interpolação no texto. Quem avalia deve registrar no laudo o critério adotado e aplicá-lo a todos os grupos do mesmo trabalho, em vez de presumir que a norma o resolveu.
quando a tarefa não está no quadro
O texto prevê isso em dois degraus, e a ordem importa:
Caso uma atividade específica não esteja apresentada no Quadro 3 deste anexo, o valor da taxa metabólica deverá ser obtido por associação com atividade similar do referido Quadro.
Na impossibilidade de enquadramento por similaridade, a taxa metabólica também pode ser estimada com base em outras referências técnicas, desde que justificadas tecnicamente.
Primeiro tenta-se a similaridade. Uma operadora de máquina de costura industrial, sentada, com as duas mãos ocupadas e algum movimento de pé no pedal, não está no quadro com esse nome; a linha de trabalho com as mãos ou com os braços, sentada, é a vizinha natural. Só quando nenhuma linha serve é que se recorre a outra referência técnica, e aí a palavra pesada é "justificadas": a fonte e o raciocínio têm de estar escritos no relatório.
a jornada raramente é uma atividade só
O Quadro 3 descreve atividades isoladas. O trabalhador de uma câmara de secagem, por exemplo, alterna conferência sentado, deslocamento a pé e carga de bandejas. O item 3.3 manda que as medições e os cálculos sigam a NHO 06 da Fundacentro, e é lá que está o método de combinar situações ao longo do tempo; o texto da NR-09 não o reproduz. O que a NR-09 exige é a base: cada situação com o tempo de permanência (alínea "j") e a taxa de cada uma (alínea "k"). Sem essa decomposição escrita, o número final não se reconstrói.
o 414 W que aparece em outro item
O Quadro 3 também explica uma expressão do item 4.1.1, que trata do que fazer acima do nível de ação:
programar os trabalhos mais pesados (acima de 414W - quatrocentos e quatorze watts), preferencialmente nos períodos com condições térmicas mais amenas, desde que nesses períodos não ocorram riscos adicionais.
Em outras palavras, a classificação de "trabalho mais pesado" depende da taxa que o avaliador escolheu. Andar em plano a 4 km/h carregando 30 kg está em 450 W; trabalho pesado com o corpo, em pé, está em 630 W; ambos ficam acima do corte. Trabalho moderado com dois braços, em pé, está em 279 W e não fica. Por isso a mesma decisão alimenta duas coisas: a linha do limite e a regra de programação do trabalho. Um erro de linha vira dois erros.
o que registrar
- A descrição da tarefa observada, com a postura e a parte do corpo que trabalha.
- A linha do Quadro 3 escolhida e o valor de M, ou a similaridade adotada, ou a referência técnica externa com a justificativa.
- O tempo de permanência em cada situação, como a alínea "j" do item 3.2 pede.
- O critério usado quando a taxa não coincide com uma linha dos quadros de limite.
- Quem observou a tarefa e em que data, para que a estimativa possa ser refeita se o posto mudar.
O caminho completo da avaliação, desde o que vem antes da medição, está em um artigo sobre a avaliação preliminar do calor. E a diferença entre nível de ação e limite, que decide o que a taxa escolhida vai disparar, está em outro, sobre os dois quadros.
Fontes
- NR-9 — Avaliação e controle das exposições ocupacionais a agentes físicos, químicos e biológicos. Anexo III, itens 3.2, alíneas "j" e "k", 3.3 e 3.3.1
- NR-9 — Avaliação e controle das exposições ocupacionais a agentes físicos, químicos e biológicos. Anexo III, itens 3.3.1.1 e 3.3.1.1.1
- NR-9 — Avaliação e controle das exposições ocupacionais a agentes físicos, químicos e biológicos. Anexo III, item 4.1.1, alínea "b", e Quadro 3
A norma vigente e sempre a publicada pelo Ministerio do Trabalho e Emprego. Este texto comenta a exigencia — nao a substitui, e nao vale como parecer para caso concreto.

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