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Animal grande no abate: ajuda mecânica e atordoamento falho

Na linha de abate, a NR-36 manda usar ajudas mecânicas, medidas técnicas contra corte, tombamento e prensagem e dispositivos para reter o animal quando o atordoamento falha.

·7 min de leitura·NR-36

Um bovino adulto pesa centenas de quilos e não colabora. Em alguns pontos da linha o animal está inerte, em outros se move, e quem segura, corta ou ergue está ao alcance dele. Três itens da NR-36 tratam desse risco, e este artigo os reúne: a força muscular no manuseio (36.4.1.1), as medidas para o processamento de animais de médio e grande porte (36.4.1.7) e os dispositivos para reter o animal quando o atordoamento não cumpre sua função (36.6.5). Mostra também a ordem em que a norma pede as medidas.

o que a norma manda para o processamento do animal grande

Nas atividades de processamento de animais, principalmente os de grande e médio porte, devem ser adotados: a) sistemas de transporte e ajudas mecânicas na sustentação de cargas, partes de animais e ferramentas pesadas; b) medidas organizacionais e administrativas para redução da frequência e do tempo total nas atividades de manuseio, quando a mecanização for tecnicamente inviável; e c) medidas técnicas para prevenir que a movimentação do animal durante a realização da tarefa possa ocasionar riscos de acidentes, tais como corte, tombamento e prensagem do trabalhador.
NR-36, item 36.4.1.7

O item tem três camadas, e a segunda depende da primeira:

  • Alínea “a”: mecanizar a sustentação. Sistemas de transporte e ajudas mecânicas para as cargas, as partes de animais e as ferramentas pesadas. A palavra “ajudas” importa: a norma não exige que tudo seja automático, e sim meios que sustentem o peso no lugar dos braços do trabalhador.
  • Alínea “b”: organizar, só quando a mecanização é inviável. A alínea trata de frequência e de tempo total de manuseio, e vem condicionada: “quando a mecanização for tecnicamente inviável”. Medidas como organizar o trabalho para que a mesma pessoa não segure sempre a carga entram aqui, depois da tentativa de mecanizar, e não no lugar dela.
  • Alínea “c”: conter o movimento do animal. Medidas técnicas, e não apenas orientação, contra corte, tombamento e prensagem do trabalhador. Esta alínea não depende da mecanização: vale para o posto em que o animal pode se mover durante a tarefa.

O texto não define o que é animal de médio ou de grande porte, em peso ou em categoria, e o glossário da NR-36 não traz o verbete. Repare no “principalmente”: o item vale para as atividades de processamento de animais, e o porte indica onde ele pesa mais, não um limite de aplicação. Como prática, registre no inventário de riscos, por espécie e por categoria que passa pela linha, em que postos isso acontece. O item também não diz se o animal está vivo ou já abatido no momento da tarefa; a alínea “c” descreve o risco, a movimentação do animal durante a tarefa, e é por esse risco que o posto entra nela ou não.

a força muscular excessiva, que liga as alíneas

O manuseio de animais ou produtos não deve propiciar o uso de força muscular excessiva por parte dos trabalhadores, devendo ser atendidos, no mínimo, os seguintes requisitos:
NR-36, item 36.4.1.1

O critério é o mesmo da alínea “a” do 36.4.1.7: a sustentação mecânica existe para tirar o peso do trabalhador. As alíneas do 36.4.1.1 completam com a disposição do trabalho: os elementos manipulados dentro da área de alcance principal, a altura das esteiras sem extensões e elevações excessivas dos braços e dos ombros, e as caixas e continentes posicionados de modo a facilitar a pega e a evitar torção e inclinação do tronco continuadas.

atordoamento falho: o dispositivo para reter o animal

Devem ser previstos dispositivos para reter o animal de médio e grande porte no caso de um atordoamento falho ou de procedimentos de não atordoamento que possam gerar riscos ao trabalhador devido à movimentação dos animais.
NR-36, item 36.6.5

O item trata de um evento específico, o atordoamento falho, em que o procedimento não cumpre sua função e o animal segue se movendo perto do trabalhador, e também dos procedimentos de não atordoamento. Nos dois casos o texto manda prever dispositivos para reter o animal, porque o risco para o trabalhador vem da movimentação dos animais. Três pontos de leitura. “Devem ser previstos”: o dispositivo faz parte do projeto do posto e não se improvisa no dia em que o animal se debate. “Reter”: o objetivo é impedir que o animal se desloque ou alcance quem está no posto. E a norma não nomeia o equipamento; o projeto escolhe (uma contenção no próprio box, uma barreira, uma trava) e o inventário descreve.

O item não trata de como atordoar o animal nem de bem-estar animal: trata do trabalhador. O acesso ao box, as posições e o uso dos comandos têm item próprio, o 36.6.4, que está no artigo sobre a recepção e a descarga de animais no abate. Os dois itens se somam; um não substitui o outro.

na prática: um posto, uma pergunta de cada vez

  • Liste os postos em que se lida com animal de médio e grande porte, e a tarefa de cada um.
  • Para cada tarefa: o peso fica numa ajuda mecânica ou nos braços do trabalhador? (36.4.1.7, alínea “a”)
  • Se não há ajuda mecânica: por que a mecanização é tecnicamente inviável, e qual medida reduz a frequência e o tempo total de manuseio? A justificativa vai por escrito. (alínea “b”)
  • O animal pode se mover durante a tarefa? Que barreira, apoio ou posição do trabalhador impede corte, tombamento e prensagem? (alínea “c”)
  • No box de atordoamento: que dispositivo retém o animal se o atordoamento falhar, e onde está o trabalhador nesse momento? (36.6.5)

o erro comum

  • Começar pelo rodízio. A alínea “b” só se aplica quando a mecanização é tecnicamente inviável; sem essa justificativa, o rodízio não cumpre a alínea “a”. O que o rodízio é, e o que ele não substitui, está em rodízio de atividades no frigorífico.
  • Tratar o dispositivo de retenção como detalhe do box. O 36.6.5 é um item com evento próprio, e o 36.6.4 não o substitui.
  • Orientar em vez de proteger. A alínea “c” pede medida técnica. Aviso e treinamento ajudam, mas não são a medida.
  • Olhar só a velocidade da linha. A velocidade é outro critério da norma (veja velocidade da linha de abate), e uma linha mais lenta não substitui a ajuda mecânica nem a contenção do animal.

O que levar

Três medidas, nesta ordem de raciocínio: sustentar o peso com ajuda mecânica; só quando isso for tecnicamente inviável, reduzir frequência e tempo por medida organizacional, com a justificativa escrita; e, em qualquer caso, conter o movimento do animal e prever o dispositivo que o retém se o atordoamento falhar. O mapa da norma inteira está em NR-36: o que é, a quem se aplica e o que exige do frigorífico.

Fontes

A norma vigente e sempre a publicada pelo Ministerio do Trabalho e Emprego. Este texto comenta a exigencia — nao a substitui, e nao vale como parecer para caso concreto.

Este assunto tem um guia em PDF

Trabalho rural: PGRTR, SESTR, CIPATR e agrotóxicos

Guia técnico · NR-31 · 18 páginas · PDF

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